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A guerra comercial é uma ameaça real, mas a verdadeira encrenca é o sistema bancário chinês
Bolhas e insolvências por todos os lados

Esta semana, o Banco Central da China anunciou uma desvalorização do yuan em relação ao dólar. A taxa de câmbio saltou de ¥6,85 por US$1 para ¥7,05 por US$1.

Embora possa parecer pouco, há um grande simbolismo nesta atitude: tal valor é o maior dos últimos 11 anos.

O governo americano retaliou acusando oficialmente a China de "manipuladora cambial", uma medida que Washington sempre ameaçou fazer, mas que até então nunca havia realmente efetuado.

A ironia, no entanto, é que, ao contrário do sempre disseram a mídia e figuras do governo americano, a moeda chinesa não só não era artificialmente desvalorizada, como, ao contrário, sempre foi artificialmente valorizada. Confira no gráfico a taxa de câmbio do yuan em relação ao dólar desde o ano 2000.

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Figura 1: evolução da taxa de câmbio Yuan/dólar

Observe que, até o início de 2005, eram necessários 8,28 iuanes para comprar um dólar. Era um câmbio fixo. Desde então, o yuan começa a se apreciar em relação ao dólar, com o ápice da apreciação ocorrendo ao final de 2013, quando um dólar passou a custar apenas 6,05 iuanes.

De 2014 ao início 2017, aí sim, ocorreu uma desvalorização, a primeira desde o fim do câmbio fixo (não coincidentemente, a economia chinesa desacelerou fortemente desde então).

Após uma rápida apreciação ocorrida entre 2017 e 2018, o yuan voltou ao valor do início de 2017 e se manteve ali até esta semana, quando foi realmente desvalorizado.

Ou seja, a China, na realidade, vinha mantendo sua moeda apreciada, e não depreciada. Há, inclusive, analistas que afirmam que, se o governo chinês sair do mercado de câmbio e deixar a moeda flutuar — como quer o governo americano —, o yuan iria se desvalorizar de 30 a 40%. Exatamente o oposto do que deseja o governo americano.

Como era de se esperar de um conflito puramente político, a medida do governo chinês de deixar a moeda desvalorizar tem menos a ver com fatos e mais a ver com posicionamento político, dado que a guerra comercial entre Trump e o Partido Comunista Chinês voltou a esquentar.

A reação dos mercados financeiros ao ressurgimento desta batalha de egos entre os líderes das duas maiores economias do mundo foi significativa. As moedas de todas as economias emergentes derreteram. [N. do E.: o real, que vinha se fortalecendo perante as principais moedas do mundo, desabou, com a cotação do dólar indo de R$ 3,75 para quase R$ 4 em apenas três dias]. As bolsas de valores ao redor do mundo desabaram.

O fato de terem caído com a notícia de algo que já vinha ocorrendo desde 2017 mostra que os mercados financeiros esperavam algum tipo de acordo de cavalheiros entre os dois países. Talvez esperassem que Trump estivesse desejoso por um acordo, já que estamos adentrando a temporada eleitoral nos EUA (e nenhum presidente americano é reeleito quando a Dow Jones e o S&P 500 estão em queda). Ou então imaginavam que os distúrbios anti-governo em Hong Kong amolecessem Pequim.

Em todo caso, a queda dos mercados financeiros com a notícia ressalta um problema ainda mais fundamental: os agentes financeiros ainda acreditam que as políticas protecionistas de Trump representam o principal risco para a economia da China.

Só que isso não é verdade.

Apenas para não deixar dúvidas: as tarifas de importação implantadas por Trump sobre os produtos da China têm sido uma tormenta para o governo chinês. Não apenas elas impactaram as exportações chinesas para os EUA (que caíram quase 8% em julho), como também — e talvez ainda mais importante – as tarifas retaliativas que a China impôs sobre produtos americanos (particularmente produtos agrícolas como soja e carne de porco) contribuíram para aumentar os preços dos alimentos no país.

Este aumento no custo de vida, em conjunto com uma redução no crescimento econômico — o qual Xi Jinping rotulou como sendo "o novo normal" —, certamente traz pressões singulares e inéditas sobre o Partido Comunista. (O que apenas mostra como tarifar produtos estrangeiros é uma medida ignara, pois sempre afeta a população).

Tudo isso, no entanto, é uma ameaça menos grave quando se leva em consideração o real problema que assombra a China: um sistema bancário em crise.

Bancos inflados e insolventes

Dois meses atrás, o governo chinês encampou o Baoshang Bank, uma pequena instituição sediada na Mongolia. O que foi realmente notável neste ato não foram as ações tomadas pelo governo, mas sim o fato de que a medida foi noticiada. Embora o Partido Comunista Chinês (PCC) certamente tivesse o poder de manter suas ações secretas, com vários especulando que medidas similares já foram tomadas no passado, os próprios burocratas fizeram questão de eles próprios alertarem a imprensa sobre suas ações. Eles até mesmo escolheram a Reuters, em vez da mídia tradicional chinesa, para fazer o anúncio.

Há quem diga que esta medida do governo foi calculada para ser vista por todos como um sinal de que o PCC está a par dos amplos problemas em seus bancos regionais e está preparado para tomar as medidas necessárias. Com efeito, após essa medida, o governo criou um novo programa de seguro de depósitos, com o intuito de "ajudar instituições financeiras a lidar com riscos e criar mecanismos de saída".

Ao final de julho, descobriu-se que outro banco estava em crise, desta vez o maior e regional Banco de Jinzhou. Embora feita de maneira distinta da explícita encampação do Baoshang, novamente o governo chinês teve de vir ao socorro: instituições financeiras estatais injetaram capital diretamente no banco.

Embora até seja possível que Baoshang e Jinzhou sejam incidentes isolados, vários analistas especializados em China estão alertando que estes são apenas os primeiros tremores de um sistema financeiro sobre-alavancado que está começando a sofrer as consequências de anos de expansão artificial do crédito. (Ver também aqui e aqui).

O país vivenciou uma maciça expansão do crédito na última década. Desde 2008, toda a dívida existente no país em relação ao PIB praticamente dobrou, ultrapassando 300% do PIB em 2019 (a espantosa quantia de US$ 34 trilhões). Dado que o mundo também apresenta altos níveis de endividamento, seria fácil ignorar estes dados chineses, mas há uma variedade de motivos por que os níveis de endividamento da China são particularmente preocupantes.

Para começar, o principal componente da dívida chinesa não é a dívida do governo, mas sim a dívida das empresas. Em 2017, de acordo com o FMI, a dívida corporativa foi de 160% do PIB. (A título de comparação, a dívida corporativa americana, que é considerada alta, é de 48% do PIB). Ainda mais inquietante é o fato de que as empresas controladas pelo estado foram as mais agressivas em assumir riscos: elas pegaram 85% de todos os empréstimos feitos no país.

Obviamente, o fato de serem controladas pelo estado concedeu a estas empresas uma vantagem comparativa no mercado de crédito, o que contribuiu para afugentar e impossibilitar o acesso de empresas privadas a empréstimos. E, também obviamente, empresas controladas pelo estado não estão interessadas em lucratividade, mas sim em atender aos desejos políticos dos líderes governamentais. Elas operam visando à política, e não a resultados econômicos. A consequência inevitável é que vários desses empréstimos foram tomados para efetuar projetos que nunca foram lucrativos. Ou seja: é uma dívida que simplesmente jamais será quitada.

O sistema bancário paralelo (shadow banking)

Há outras razões por que a situação de endividamento da China é mais volátil do que a de outros países. Eis uma delas:

A dívida chinesa é avassaladora não por causa de seu volume – mais de US$ 34 trilhões  — mas sim porque a cifra quadruplicou em sete anos (2007-2014). ... Não é apenas a velocidade do crescimento da dívida; sua composição também preocupa. Quase metade dela foi direcionada ao setor imobiliário e aos setores relativos a esta indústria, e pelo menos outros 30% advém do sistema bancário paralelo ("shadow banking"), cujos critérios financeiros são altamente questionáveis.

O sistema bancário paralelo (shadow banking) mencionado acima é outra área que sempre preocupou os burocratas do PCC.

O shadow banking envolve instituições financeiras que oferecem retornos mais altos sobre os depósitos de clientes para fazer o que eles chamam de "gestão de recursos". Este dinheiro é então emprestado a empresas que não conseguem obter empréstimos tradicionais. O shadow banking se tornou extremamente atrativo no país devido à sua capacidade de pagar juros maiores do que as contas bancárias tradicionais.

A própria natureza do shadow banking carrega em si mais riscos do que o sistema bancário tradicional. Dada a predominância das empresas estatais no mercado de crédito (quase apenas eles conseguem obter empréstimos), o sistema bancário paralelo se tornou uma desesperadoramente necessária fonte de crédito para empresas privadas, ainda que a juros muito maiores. Embora Pequim tenha tentado — exitosamente — reduzir o crescimento do setor no ano passado, tais esforços foram abandonados em decorrência da atual guerra comercial, o que fez com que o setor voltasse a crescer em 2019.

Trazendo a história de volta para os anteriormente mencionados socorros bancários, boa parte do sistema bancário paralelo chinês opera em conluio com bancos regionais, tais como os bancos de Baoshang e Jinzhou. À época de sua tomada, acreditava-se que 25% dos ativos do Baoshang eram investimentos no sistema bancário paralelo.

Simultaneamente, a Moody's alerta que essa modalidade de crédito (arriscados empréstimos feitos pelos bancos convencionais ao sistema bancário paralelo) está crescendo rapidamente (foi de 100 para 300 bilhões de iuanes em três anos), colocando todo o sistema bancário tradicional em risco.

Outro alerta está no fato de que os balancetes dos bancos chineses são particularmente intrincados. Como observou a Bloomberg, o socorro ao Banco de Jinzhou foi adicionalmente complicado pelo fato de que "os balanços contábeis do banco estavam tão confusos e desorganizados, que ninguém ainda conseguiu decifrar e divulgar os dados de 2018".

E complicando ainda mais a situação estão a desconfiança generalizada nas empresas de auditoria chinesas e a baixa confiabilidade das demonstrações financeiras dentro do país, como relatou o The Wall Street Journal no início deste mês.

Portanto, a qualidade destes empréstimos – tanto no sistema bancário tradicional quanto no paralelo — é uma enorme interrogação que os reguladores chineses estão tendo de decifrar à medida que vão tentando entender essas instituições.

Tudo isso ajuda a ilustrar por que há crescentes preocupações com o sistema bancário chinês.

Adicionalmente, a eventual insolvência destas instituições tem consequência para seus pares. Imediatamente após o encampamento do Baoshang, houve um acentuado aumento nas taxas de juros dos empréstimos interbancários e nas exigências de colateral (garantia), com os grandes bancos se tornando mais cautelosos até mesmo em seus empréstimos para instituições de mesmo tamanho.

Com efeito, os quatro grandes bancos da China viram os preços de suas ações cairem às mínimas históricas esta semana, com temores de que eles seriam convocados a socorrer instituições menores no futuro próximo – um sinal de que ninguém imagina que os pânicos bancários estejam perto do fim.

Quantas dessas instituições estão com problemas?

Kyle Bass, gestor de fundos multimercado que há muito vem alertando que o sistema bancário chinês é insolvente, afirmou que há "aproximadamente 500 bancos na China que são tidos pelo próprio governo como problemáticos".

Se for verdade, é possível que o PCC esteja próximo de enfrentar sua maior crise financeira da era moderna.

Para concluir

Embora seja particularmente difícil para um estrangeiro ter uma visão sólida da real força da economia chinesa, há fortes motivos para acreditar que o país possui um sistema bancário altamente alavancado, com uma carteira de crédito composta por empréstimos de qualidade duvidosa e com calotes crescentes.

Embora praticamente toda a mídia permaneça concentrada em Trump e no guerra comercial, a maior ameaça à economia chinesa pode vir a ser uma maciça bolha financeira criada por eles próprios.


autor

Tho Bishop
é consultor político da Bishop & Associates, em Panama City Beach, Flórida, e diretor das mídias sociais do Mises Institute americano.



  • Lucas-00  07/08/2019 20:16
    Algumas dúvidas: por que houve a desvalorização do yuan?
    E por que o governo chines deixou se desvalorizar e não resolver valorizar o yuan?
  • Gary  07/08/2019 20:45
    Porque o governo chinês é mercantilista. E, como todo mercantilista, acredita que destruir a própria moeda é bom, pois "estimula" as exportações.

    Como Trump colocou uma tarifa de 10% nos produtos importados da China, os burocratas chineses acreditam que, ao desvalorizar a moeda (ou seja, deixá-la mais barata em termos de dólares), irão conseguir anular o encarecimento gerado por essa tarifa.

    O Banco Central chinês, como todos os outros BCs, é um seguidor da doutrina keynesiana. Ele está comprometido com uma forma específica de keynesianismo: o mercantilismo. Os burocratas chineses que controlam o governo querem subsidiar as exportações chinesas. E eles fazem isso depreciando o yuan em relação ao dólar. E isso, por sua vez, funciona como um subsídio para o setor exportador da economia chinesa.

    Os burocratas que gerenciam o governo chinês determinaram que é bom para a China vender para os estrangeiros todos os bens de valor que produzem, desta forma reduzindo a oferta destes bens para os próprios chineses e, com isso, privando sua população de usufruir um maior padrão de vida. Obviamente, isso é um péssimo negócio para a maioria dos cidadãos chineses, mas um ótimo negócio para os protegidos magnatas do setor exportador.

    É também um ótimo negócio para os cidadãos americanos que compram produtos chineses bons e baratos. O governo chinês está subsidiando o estilo de vida dos americanos.

    Enquanto isso, os cidadãos chineses, que estariam felizes em poder consumir os bens produzidos pela indústria chinesa, acabam sendo privados destes mesmos bens, pois a preferência é que eles sejam exportados para os estrangeiros.

    Isso é o básico do mercantilismo. Tudo de bom que um país produz deve ser mandado para fora com subsídios do governo, deixando sua população apenas com as sobras. Ganha o setor exportador e ganham os burocratas do governo (que recebem "gratificações" deste setor exportador).

    Mercantilistas sempre estiveram convencidos de que ter um Banco Central subsidiando o setor exportador é algo extremamente benéfico para uma nação, e que a reduzida quantidade de bens e serviços que estarão disponíveis para os consumidores domésticos (tanto em decorrência de mais produtos domésticos estarem sendo exportados quanto em decorrência de menores importações por causa da moeda mais desvalorizada) é algo sem nenhuma importância.

    Enquanto este subsídio coercivamente extraído de uma maioria para uma minoria não for visto como um programa de transferência de riqueza dos mais pobres (consumidores comuns) para os mais ricos (barões do setor exportador), todo o arranjo irá se manter.

    Quando o governo de um país adota o mercantilismo, ele o faz sabendo que praticamente ninguém compreende que aquela política prejudica a vasta maioria dos cidadãos e beneficia apenas uma minoria que está no setor exportador da economia.
  • Vinícius  07/08/2019 21:00
    O governo brasileiro faz a mesma coisa. Aqui, ao ir à feira você só encontra o resto das frutas. As melhoras são exportadas.

    Já tomaram café brasileiro? É um dos melhores, mas tem que sair do Brasil para experimentar.
  • Vladimir  07/08/2019 21:07
    Boa observação.

    Exportador não é bobo: ele vai vender para quem der em troca a moeda com mais poder de compra.

    Se o dólar vale mais que o real, exportador vai vender para quem tem dólar. Se o real valesse mais que o dólar, pode ter certeza de que esses exportadores deixariam de sê-lo, e prontamente passariam a vender tudo aqui dentro.

    No final, é tudo uma questão de poder de compra da moeda. A moeda com mais poder de compra leva as melhores mercadorias. Vá à Suíça e veja se você encontra algum produto vagabundo por lá...
  • Xi  07/08/2019 21:35
    A economia chinesa surgiu planejada. E ela foi planejada para ser exportadora. Sair desse arranjo e adotar um outro, que esteja mais em conformidade com as demandas da população, não é algo simples. E muito menos indolor.
  • JP  07/08/2019 21:36
    A economia chinesa do PCC é tão enganosa quanto a economia da época da URSS, guardada as devidas proporções e cada uma ao seu modo. Vejo muitas criancinhas adoradoras de bugigangas ching-ling vindas das China. Como este site já avisa há tempos por meio de diversos artigos, vou rir quando até mesmo diversos liberalóides-geeks se decepcionarem com o possível terremoto. Esquecem que tudo no comunismo é farsa e desinformação, pode-se demorar décadas até a verdade vir à tona, mas ela vem, como veio na URSS.
  • Daniel  07/08/2019 22:39
    Sim, eles imitam os padrões observados nas fases finais do "crescimento" soviético. Eles sempre apresentam um uma taxa de desemprego que é comicamente plana (ela nunca se altera), e que sempre ficou entre 3 e 4,5% desde que foi divulgada pela primeira vez em 1988. E sempre utilizam o setor da construção civil como alavanca para manter sua "impressionante" capacidade de sempre alcançar perfeitamente as metas de crescimento econômico, até mesmo nas casas decimais.
  • Lucas-00  07/08/2019 23:09
    Obrigado pela excelente resposta Gary! Entretanto, ainda não entendi uma coisa.
    O texto fala que na verdade, o governo chinês valorizou a moeda (naquela parte que sem a intervenção do BC vendendo reservar o yuan estaria de 30 a 40% mais barato) , o que eu entendi é que no fundo no fundo eles sabem que isso é melhor para eles.
    Logo, por que desvalorizar agora se eles sabiam que valorizar é bom?
  • Fiúza  07/08/2019 23:35
    Você elogiou a resposta dele e não percebeu que ele explicou claramente por que eles pensam assim?! Releia de novo a parte do mercantilismo.
  • Lucas-00  07/08/2019 23:55
    O meu deus do céu. Se eles são totalmente mercantilistas então por que raios estavam tentando deixar o valor do yuan artificialmente alto?
    Releia parte do artigo: "Ou seja, a China, na realidade, vinha mantendo sua moeda apreciada, e não depreciada. Há, inclusive, analistas que afirmam que, se o governo chinês sair do mercado de câmbio e deixar a moeda flutuar — como quer o governo americano —, o yuan iria se desvalorizar de 30 a 40%. Exatamente o oposto do que deseja o governo americano."
    Se eles fossem totalmente mercantilistas, a moeda já tava esses 30 a 40% desvalorizados mais a desvalorização do grau mercantilista deles.
  • Gary  08/08/2019 00:39
    Serei mais claro em minha opinião.

    De 2005 a 2014, o dólar caiu de 8,25 iuanes para quase 6 iuanes. Trata-se de uma inegável apreciação, ao contrário do que sempre disse a mídia.

    Só que, neste período, o dólar estava mundialmente fraco, desvalorizando-se perante as principais moedas do mundo. Ou seja, não foi o BC chinês quem voluntariamente trabalhou para apreciar o yuan. Era o dólar que estava se desvalorizando perante o mundo.

    E o dólar se desvalorizou perante o yuan mesmo com o BC chinês comprando dólares a rodo para tentar manter sua moeda desvalorizada o máximo possível. Veja aqui a estrondosa evolução das reservas internacionais da China, o que mostra o tanto de moeda estrangeira que o BC chinês comprou no período.

    Tenha em mente que todo BC compra dólares imprimindo moeda nacional, o que desvaloriza a moeda nacional.

    Sendo assim, imagine então como seria caso o BC chinês não tivesse impresso yuans para comprar essa montanha de dólares? Não seria desarrazoado imaginar que o dólar tivesse chegado a, sei lá, 5 iuanes na época.

    Ou seja, aí está o mercantilismo do governo chinês: ele atuou para impedir uma maior desvalorização do dólar. Em outras palavras, ele deixou o yuan mais fraco do que seria sem sua intervenção.

    Minha opinião.


    P.S.: hoje, com o dólar tendo invertido sua tendência de desvalorização em 2014, tornando-se mundialmente forte, a China não mais precisa atuar para desvalorizar a moeda. Ao contrário: se ela não fizer nada, como quer o governo americano, o yuan se desvaloriza, exatamente o oposto do que querem os burocratas de Washington, que não sabem paçocas de economia.
  • Lucas-00  08/08/2019 01:13
    Sim, agora entendi totalmente.
    Creio que você tenha razão, não vejo outra razão também.
    Parabéns pela perspicácia.
  • Pobre Paulista  07/08/2019 20:19
    Subtítulo alternativo: "O poder devastador de uma simples briga no twitter"
  • Paulo Henrique  07/08/2019 21:45
    Dúvida: numa guerra comercial, ganha quem falir o seu povo primeiro?
  • Luiz Fernando  07/08/2019 22:51
    Pra mim está bastante óbvio que o Trump usa o Twitter para fazer especulação no mercado financeiro. O S&P sobe, ele vai pro Twitter e faz uma ameaça, a economia global trava, S&P despenca, ele compra tudo e aí fica mansinho. E então o S&P volta a subir forte, ele vende tudo, compra índice de volatilidade, volta pro Twitter, faz mais ameaça e começa tudo de novo.
  • J K  08/08/2019 02:44
    Boatos que mesmo lá nos EUA, o mercado já percebe a coisa assim também. Um hispânico me disse dia desses:" Oxalá que não esteja fazendo isso propositado"
  • J K  08/08/2019 02:54
    E nessa luta, a vai China vai trabalhando para fazer sua moeda se tornar considerada como reserva de valor. Enquanto eram necessários ¥6 e algo para adquirir U$1,00 eles foram adquirindo títulos americanos. Com a cotação em 7,05, deu-se uma desvalorização de 17,5% aprox. Então, o BoC agora revende esses títulos do governo americano e embolsa esse lucro. É como se o BCB comprasse U$ por R$3,20 e agora esperasse alguém querendo tirar o dinheiro do Brasil e que seria obrigado a ter R$4,00/cada dólar. Os r$0,80 seriam lucro do BC. Golaço do banco da China.
  • J K  08/08/2019 03:02
    Eu não sei onde se buscou a informação da dívida da China, mas a que tenho é U$9,520 Tri, com PIB de U$15,3 Tri. O " External debt to GDP ratio" é de 12,174% sendo que a dívida pública em relação ao PIB é de 62,11%.
  • Régis  08/08/2019 03:52
    No link do artigo. Financial Times.

    www.ft.com/content/0c7ecae2-8cfb-11e8-bb8f-a6a2f7bca546

    Ou se preferir, aqui:

    www.reuters.com/article/us-china-economy-debt/chinas-debt-tops-300-of-gdp-now-15-of-global-total-iif-idUSKCN1UD0KD

    Ou aqui:

    www.bloomberg.com/news/articles/2019-07-16/china-s-debt-growth-keeps-marching-on-as-economy-loses-pace

    Trata-se da dívida do governo, das pessoas e das empresas.


    P.S.: o PIB da China foi de US$ 12,24 trilhões em 2017
  • J K  08/08/2019 22:15
    Olá, orientei-me por esse, no link abaixo, possível que você conheça.

    usdebtclock.org

    Do lado esquerdo, parte superior, aperte em "world debt clock"

    Como eu disse, o governo deve pouquíssimo. As pessoas e o corporativo devem muito, mas não em dólares. Por isso, acredito, o sistema bancário local pode ter dificuldades mas o governo não sofrer nada, restando-lhe apenas escolher quais bancos serão "estatizados". Brasil entende disso, e taí algo em que foi eficiente.
  • anônimo  07/08/2019 20:32
    Finalmente Tho Bishop, Obrigado! Go Trump!
  • Fabrício  07/08/2019 20:38
    Por que "Go Trump"?

    Aliás, veja a ironia da coisa: normalmente, quem apóia as políticas de Trump são também apoiadores de Bolsonaro. Só que as guerras comerciais de Trump prejudicam enormemente a economia brasileira, o que tem reflexos diretos na aprovação popular ao governo Bolsonaro.

    Ou seja, bolsonaristas apóiam Trump, cujas medidas protecionistas ferram a moeda brasileira e com isso debilitam totalmente a economia brasileira, afetando diretamente a popularidade de... Bolsonaro.

    Vai entender...
  • Caio  07/08/2019 21:33
    The Art of the Deal.
  • Neto  07/08/2019 21:55
    Não tente.
  • Imperion  08/08/2019 01:39
    Eles estão esperando o erro do bush, que inventou guerra e o dólar desvalorizou e na epoca, com o dólar desvalorizado, a economia deu um saltos, antes da dilma desbundegar tudo na sua nova matriz economica. Tao achando que com o enfraquecimento pela guerra comercial isso vai se repetir
  • Imperion  08/08/2019 01:43
    Emquanto isso a nota do brasil em situação fiscal é 2.2 e integtidade do governo 3 .3 de 10. Com seus 11 por cento do pib de deficit, e um governo altamente burocratico, paganfo 3.5 bilhoes pra financiar eleicoes particulares dos candidatos, privilegios e mais privilegios por todos os lado, esta altamente vulnerável a intempéries estranjeiras.
    Mercantilismo brasileiro
  • Dúvida  07/08/2019 22:48
    Boa noite!

    Excelente artigo, mas eu gostaria de saber se algo positivo virá desta "guerra comercial" entre China e Estados Unidos. Eu me pergunto pelo setor do agronegócio: farelo e óleo de soja, soja em grão, milho em grão, suco de laranja, açúcar, carne de frango e de porco, carne bovina, café, entre outros. Se os chineses pararem de comprar alguns desses produtos dos EUA, eles poderiam comprar do Brasil? Ou não?
  • anônimo  07/08/2019 22:54
    Absolutamente nada de bom pode advir de uma guerra comercial. O próprio nome já diz tudo: guerra. E nada de bom vem de uma guerra.

    Se a China for pro buraco, o setor agrícola brasileiro vai junto, pois a China é seu maior consumidor.
  • Joãozinho  07/08/2019 22:54
    Só sei que ser americano deve ser muito bom. Lá, o presidente pode anunciar qualquer medida anti-mercado, como essa agora de taxar produto chinês, e o que acontece com o dólar? SE VALORIZA.

    Aqui, se um vereador vai pro Twitter e fala mal de um deputado, real e bolsa desabam.

    Povo privilegiado esse americano!
  • Lucas-00  07/08/2019 23:10
    Então! Já pensei a mesma coisa haha
  • Estado o Defensor do Povo  08/08/2019 00:04
    hahahaha parece que forças ocultas sobrenaturais agem em favor dos EUA.
  • Paulo  08/08/2019 00:25
    A verdadeira encrenca é o sistema bancário global.
    Não sei se é exagero meu, mas quando eu aplico a ideia austríaca dos ciclos econômicos no cenário global, eu só consigo ver bolha para todo lado. Japão, EUA, Europa, China.
    Só espero que não ocorra efeito domino. Pois ai podemos estar vendo algo histórico, de deixar 29 e 2008 no chinelo
  • Geraldo  08/08/2019 01:29
    Pois ai podemos estar vendo algo histórico, de deixar 29 e 2008 no chinelo

    Vale lembrar que a crise de 1929 foi um dos fatores que desencadearam a Segunda Guerra Mundial.

    Se essa sua previsão se concretizar, quem garante que a situação não vai se degenerar na Terceira Grande Guerra? Em todo o mundo, velhas tensões entre nações (especialmente EUA e Rússia) têm vindo à tona. Uma crise como a de 29 poderia ser um catalisador perfeito.
  • Estado o Defensor do Povo  08/08/2019 13:48
    Desculpa mas aí acho que é viagem demais, crise econômica apenas não é suficiente para desencadear uma guerra, ainda mais atualmente, esse cenário é altamente improvável.
  • Geraldo  08/08/2019 14:35
    Pode não desencadear num primeiro momento (a Segunda Guerra só iniciou de fato em 1939, 10 anos depois do crash da NYSE), mas, pelos motivos que falei, não me surpreenderia se o pior acontecesse.
  • Estado o Defensor do Povo  08/08/2019 19:31
    E também guerras na minha concepção depende muito de como funciona a mente dos nossos governantes e autoridades, de qual é a visão de mundo deles e etc, já que são eles quem decidem iniciar ou não uma guerra, entendo que haja diversos fatores, mas na minha opinião esse pesa muito, para um político iniciar uma guerra ele tem que ser extremamente intolerante e ambicioso, muito mais do que o padrão, então conhecendo os nossos atuais políticos acho difícil eles decidirem iniciar uma guerra, só sendo um mais porra loca como Kim Jong Un ou Hitler(!), Bolsonaro apesar de ser nacionalista eu não vejo ele declarando guerras, os atuais europeus também não, ou seja, acho difícil ter guerra.
  • IRCR  08/08/2019 01:08
    Na realidade o dólar no ultimo mês/semana se manteve ou teve pequena queda em relação as principais moedas (DXY).
    Foi o Real junto com algumas moedas dos BRICS que deram um derretida em relação ao dólar.

    Euro e Franco se manteram em relação ao dólar.
  • Eduardo Alves Ramos  08/08/2019 03:58
    Já morei na China por dois anos (sou engenheiro aeronáutico). A única cidade que funciona a contento é Xangai. Nas outras você nem sequer consegue sacar dinheiro nas ATMs, que sempre estão quebradas. E o pior é que a esmagadora maioria do comércio só trabalha com dinheiro.

    Xangai é pujante mas a pobreza nas outras cidades principalmente nas periferias delas é dantesca.

    Fora o ar que é irrespirável. São Paulo é um paraíso em comparação.

    Há obras grandiosas e faraônicas no país. Os hotéis voltados para os turistas ocidentais são tão monumentais que beiram a extravagância. Só o lobby do Hotel Shangyu tem a altura de um prédio de 6 andares e eu tive de andar uns 800 metros (juro) só pra chegar ao meu quarto, o que incluía uma escada rolante absolutamente gigantesca, típica de metrô.

    Só que tudo era só aparência. Os serviços do hotel eram péssimos. A piscina tinha uma água esverdeada e tinha lixo boiando nela (e era verão). O ar condicionado estava estragado, e a recepção informou que estava assim durante todo o verão.

    Ou seja, o hotel era só visual; nos serviços, era menos que funcional. Isso é típico de todos os hotéis fora das áreas turísticas.

    Mas o que mais me chamou a atenção foi a megalomania dos aeroportos. Os principais foram projetados pensando no A380. Consequentemente, os portões são grandes demais para os aviões convencionais, os quais são obrigados a estacionar no tarmac e esperar os passageiros via ônibus ao mesmo tempo em que as pontes de embarque dos terminais estão vazias. Isso causa inúmeros atrasos nos vôos. O aeroporto de Hangzhou foi eleito o segundo pior do mundo em termos de pontualidade: apenas 42% dos vôos saem no horário.

    De resto, é raro ver o verdadeiro povo chinês se beneficiando de qualquer coisa. Quase sempre só dá a elite do PC chinês e os empresários ligados a eles. (Nos próprios eventos de minha empresa havia figurões do PC e grandes empresários do ramo, pois você não consegue fazer nada lá sem a permi$$ão de burocratas).

    Muita gente pensa que a China é uma potência irrefreável. Mas só fala isso quem conhece apenas os centros turísticos. Quando se sai dali é possível ver que as estruturas são podres.
  • Zuca em Tuga  08/08/2019 08:36
    A conta está chegando para a China.
  • Pobre Mineiro  08/08/2019 11:36
    O ser humano só acha aquilo que procura, só vê aquilo que quer ver.
    Isso vale para todos, até para você.
  • Drink Coke  08/08/2019 13:30
    A China só tem essa relevância por conta do tamanho da sua população. PIB per capita deles ainda é inferior ao do Brasil e tem gente que ousa comparar com os americanos. A China está anos luz dos americanos e possivelmente o chinês médio jamais terá o padrão de vida do americano médio, pelo menos enquanto durar esse modelo econômico.
  • Pobre Mineiro  08/08/2019 18:17
    O GDP PPP deles já é maior do que o dos EUA.
  • anônimo  08/08/2019 19:57
    Pobre Mineiro é realmente um pobre mineiro, não sabem nem o que isso mede.
  • Questionador  08/08/2019 19:00
    Muito interessante o seu comentário.
  • eugenio  08/08/2019 08:20
    Artigo que estava faltando,bom, os comentarios interessantes de quem conhece e percebe na "epiderme" a coisa real.
    Não precisa ser genio, DUMPING,capital investido em função de resultados politicos, BANCOS SEM CADERNOS EM DIA E EXTRAVIADOS ...não precisa dizer mais.

    A "CRUZADA CHINESA NO MUNDO " ficara na história, esculhambou os mercados de trabalho no mundo,atropelou,destruiram estruturas industriais do ocidente com seus produtos chineses e precificação distorcida.bancos com cadernos extraviados,lembra , outra história "GRANDE DEMAIS PARA QUEBRAR", em Wall Street ,só que pelos dados apresentados,numa escala muito maior.

    Funciona ainda a maxima:"com dinheiro não se brinca", o tempo dirá, o tempo dirá...
  • Denis  08/08/2019 13:10
    Saindo um pouco do tema há um bom tempo venho pensando sobre a proposta de capitalização privada proposta pelo Guedes, mas que foi amplamente rechaçada pela mídia. Eles fizeram uma compação com o Chile onde os aposentados acabaram tendo pensões baixas, MAS TEM UM DETALHE, nem mesmo a equipe do governo se atentou em rebater dizendo que no Chile eles aplicam apenas 8% do salário do trabalhador na previdência privada….

    NO BRASIL 31% DOS NOSSOS SALÁRIOS VÃO PARA O INSS (20% O PATRÃO PAGA SEM APARECER NAS NOSSAS FOLHAS DE PAGAMENTO E 11% PAGAMOS COM DESCONTO EM FOLHA!!!!).
    Qualquer pessoa aplicando 30% do salário durante toda sua vida produtiva CHEGA AOS 65 ANOS MILIONARIO É SÓ FAZER AS CONTAS!!!! SÓ COLOCAR NUMA CALCULADORA DE TESOURO DIRETO DA VIDA.

    O salario médio do brasileiro é 2.100 reais, peguei 1 terço 700 reais, coloquei uma simulação de aplicação mensal no tesouro selic por 360 meses (30 anos) se acumula R$672.000,00 – total investido R$252.700,00 – rendimento 420.000,00!!!
    Logico existem aplicações mais vantajosas e provavelmente o trabalhador vai trabalhar mais que 30 anos e contribuir com mais que 700 mês, então chega milionário aos 65 anos fácil.

    Factivel que num sistema de previdência privada teriamos no Brasil um país de APOSENTADOS MILIONARIOS!!! E estou falando só do peão comum que ganha 2 salários mínimos, quem ganha de 5 a 10 mil chegaria com alguns milhões na conta.
    Gostaria que vocês do MISES fizessem um estudo mais aprofundado e matéria sobre esse tema tão importante. Obrigado. Denis.
  • Questionador  08/08/2019 19:06
    Parabéns pelo seu comentário.
    Existe um excelente artigo sobre o tema, escrito no fim de 2016:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2589
  • Matheus S  11/08/2019 17:35
    Fora o que você disse do pagamento de 31% exclusivamente ao INSS, falta colocar na equação os encargos trabalhistas e benefícios que poderiam ser reintegrados aos salários aumentando ainda mais a porcentagem do que poderia investir numa futura previdência privada. Digamos que um trabalhador comum iria contribuir por um mínimo de 40 anos, se ele começar trabalhar com 20 anos, já com 60 anos poderia se aposentar como um milionário ou chegando próximo de se tornar um, mas isso é o de menor importância, o que realmente importa é que com essa quantia ele terá recursos para se sustentar durante sua aposentadoria.

    Compartilhar poupança é compartilhar riqueza. O sistema de capitalização previdenciário privado seria de longe um grande incremento no nível de investimentos e formação de capital fixo, isso seria demandado para todos os setores desde produtivos até financeiros como o mercado de capitais. Imagina só, uma grande empresa precisa de recursos para ligar os pontos extremos do Brasil de norte a sul e leste a oeste, o dinheiro ao invés de sair dos cofres públicos sairia de forma espontânea através de fundos de investimentos e previdenciários e no mercado de capitais, porém nada disso é realidade. O resultado macroeconômico, pela ótica por esses investimentos não realizados, é catastrófico como a própria situação do Brasil demonstra.

    O quadro de investimentos mostra como as fontes "boas" de financiamento do país, como lucros retidos e emissão primária de ações, têm sido devoradas e substituídas por empréstimos, sobretudo no sistema BNDES, que se colocou como fonte alternativa de recursos aos que o próprio governo toma via coerção. China e Índia, entre outros, poderão crescer, por mais tempo, com taxas anuais acima de 6%. O Brasil precisa, pelo menos, se aproximar dessa marca, se quiser estar à altura dos desafios da inserção global do país até 2050.

    A vantagem futura do Brasil nessa competição é exatamente sua atual desvantagem. Outros BRICs, com cargas tributárias bem mais leves, têm pouco ou nada a fazer, em termos de aliviar mais ainda sua carga. Portanto, os concorrentes têm que estimular a eficiência por meios mais custosos do que nós. No Brasil, pelo contrário, colocar a casa em ordem, arrumar a estrutura tributária de modo a torná-la mais adequada e justa, é suficiente para nos permitir colher benefícios enormes e inesperados. Por isso, temos um potencial competitivo escondido embaixo de espessas camadas de ineficiência fiscal que, uma vez removidas, nos empurrará para a frente com grande velocidade.

    Desoneração fiscal é a chave para o caminho sustentável à longo prazo. Simplificar drasticamente o emaranhado tributário, limitando a um único tributo o imposto sobre o valor agregado, pela aglutinação de todas as categorias de tributos incidentes hoje na circulação de bens e serviços, englobando os atuais ICMS estaduais, o PIS e a Cofins, o IPI, a Cide e a Contribuição Previdenciária Patronal (CPP). Aglutinar o Imposto de Renda PJ à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Nenhuma dessas providências implicará ganhos ou perdas para a União ou os entes federados. A arrecadação não sofrerá recuo em termos reais na partida da reformulação.

    Empregar o resultado integral do Imposto de Renda (PF e PJ), da contribuição do empregador ao INSS e da CSLL, a ser fundida ao IRPJ, na cobertura dos compromissos anuais da Previdência Social, em ambos os regimes, e limitar o financiamento desta à capacidade contributiva das rendas tributáveis dos brasileiros que trabalham e produzem.

    Muito menos falada e debatida é a distribuição da riqueza, não apenas dos fluxos de renda, na sociedade. No Brasil, são bastante escassos os estudos e mesmo as estatísticas sobre quem tem o quê, no conjunto das propriedades de terras e outros imóveis, bens mobiliários, como títulos de renda fixa, quotas de empresas, ações e outras fontes de renda variável, patentes e bens intelectuais e de criação, moedas, ouro e outros bens móveis. Quantas vezes já vimos publicados os resultados dessas medidas sobre o estoque de riqueza na economia brasileira. O enorme acervo de conhecimentos (educação, habilidades, experiência) acumulados dentro de cada pessoa, o chamado capital humano, também é uma riqueza pouco contabilizada. Essas são, afinal, as riquezas detidas pelos brasileiros, embora a distribuição desse valor, da ordem de uns R$ 20 trilhões na atualidade, entre formas de capital físico e humano, sejam muito mal conhecidas, até por pesquisadores. É mais comum se debater no Brasil a distribuição da renda, que é um conceito de fluxo anual – "vulgarmente", os rendimentos, de capital e do trabalho de cada um. A mensuração da riqueza acumulada tem ficado relegada a um plano secundário nos debates sobre as políticas de redução da pobreza.

    Em outras palavras, quem recebe, por direito, um estoque de riqueza, se torna muito mais afluente e próspero do que o beneficiário de um fluxo parcelado correspondente à renda dessa riqueza. A distribuição da renda
    nacional poderia ser muito acelerada no país se fossem tomadas algumas providências de desconcentração do capital público em favor dos credores do Estado, o povo brasileiro. Com a desconcentração do capital público, por meio de fundos sociais, uns já existentes, como o FGTS e, outros por se organizar, como o Fundo do Regime Geral da Previdência Social, uma imensa riqueza estatal reverteria para as mãos da massa da população. Infelizmente, a política social no Brasil sempre se ateve ao princípio de redistribuir apenas rendas, tanto assistenciais quanto previdenciárias.

    Contudo, o objetivo distributivo não pode ser alcançado por expropriação da riqueza de uns particulares em benefício de outros. A alternativa viável é desconcentrar o capital público, que é imenso no país. A sorte grande do Brasil é ter espaços para a desconcentração de riquezas que poucos países no mundo desfrutam. Essa parcela de riqueza está em vastas reservas minerais e de energia fóssil em poder da União, como também o enorme espaço tropicultural ainda a ser explorado, nas terras devolutas. Nossa principal ferramenta para concretizar tal revolução social está no mercado de capitais – até aqui muito pouco explorado – e na execução dos direitos da previdência social brasileira. Para avançar mais rápido que os demais países emergentes, podemos ganhar tempo pela remoção imediata de travas à concentração da riqueza previdenciária e de capitais mobiliários. As distorções acumuladas nesse campo são tantas e tão notórias que o Brasil facilmente conseguiria pactuar formas de acelerar a distribuição mais vigorosa de sua riqueza total.

    A excessiva concentração de riqueza, como ainda ocorre no Brasil, desestimula a formação da poupança interna, já que uns permanecem pobres demais para poupar de modo significativo, enquanto outros são tão ricos que já perderam parte do estímulo em continuar investindo e empreendendo. Precisamos chegar ao equilíbrio social, estimulando o surgimento de uma classe média pujante e crescente, com vontade de progredir.

    Por enquanto, o governo tem acionado o benefício do acesso ao crédito pessoal, seja consignado ou habitacional, para promover as compras do cidadão. As famílias passam a deter mais bens de consumo e seu imóvel próprio, mas levam para casa um passivo exigível, sob forma de empréstimos onerosos que financiaram suas aquisições de ativos. As formas de ascensão econômica baseadas em endividamentos muito onerosos, como no Brasil, comprometem fortemente a renda futura dos mutuários. O perigo está no endividamento excessivo, no eventual descasamento entre o valor residual do bem adquirido e o valor da dívida assumida. Uma deterioração do valor do bem em relacão ao da dívida provocará frustração do cidadão perante seu futuro. Que outra forma existiria para o cidadão ir acumulando ativos sem comprometer rendas futuras? Essa forma está diante de nós: é por meio do mercado de capitais, que não tem contado, nos últimos anos, com lançamentos de emissões primárias de ações. Além disso, há uma clara estagnação do número de pessoas físicas investidoras na bolsa de valores. É necessário retomar os estímulos a maneiras práticas de trazer o cidadão a participar dessa forma de acumular rendas para o futuro, por meio da participação no capital de empresas negociadas.

    É essencial fomentar um mercado de capitais no qual se torne fácil acumular direitos mobiliários, com liquidez para trocas de posição e a possibilidade de novos empreendedores privados buscarem os recursos para facilitar o nascimento de novas empresas. A bolsa de valores é a mais útil e democrática entre as ferramentas sociais de aproximação de poupadores individuais aos investidores empresariais. É preciso ir mais longe e organizar a participação de milhões de brasileiros na bolsa. Organizar a poupança popular é conferir tangibilidade, quer dizer, lastro confiável, aos investimentos de longo prazo da população. Falar disso é falar de previdência.

    Poucas vezes conseguimos, no passado, converter créditos monetários detidos pela população em ativos tangíveis. Dois desses eventos ocorreram quando a lei permitiu converter até 50% do estoque de
    créditos do FGTS de um trabalhador para um fundo de investimento especial, chamado Fundo Mútuo de Privatização (FMP), daí resultando a compra, por centenas de milhares de detentores de FGTS, das sobras de ações da Petrobras e da Vale, detidas pelo BNDES, e então oferecidas ao público. O lançamento do FMP foi um sucesso em termos de rentabilidade auferida inicialmente pelos optantes do novo fundo. Entretanto, poucos trabalhadores do "chão da fábrica" chegaram a concretizar tal investimento. Não foi dado tempo suficiente para o público trabalhador tomar conhecimento dessa nova forma de investimento. A razão, alegada na época, era que o foco do lançamento das ações não seria possibilitar sua aquisição pelos trabalhadores brasileiros, permitindo seu ingresso ao mundo do capital, mas o interesse do governo em oferecer uma expressiva posição de ações aos grandes investidores, a fim de levantar caixa para a redução da dívida mobiliária do Estado. No leilão, finalmente, o grosso das ações ofertadas foi adquirido por não residentes, na bolsa de Nova York.

    Urge, portanto, uma nova mentalidade, assim como uma nova abordagem, na inserção das poupanças populares ao mercado de capitais. É necessário o convencimento geral sobre os efeitos macroeconômicos poderosos que o país colherá, a médio e longo prazos, sob forma de aumento da riqueza das famílias. Repetindo: dar tangibilidade e concretude aos fundos sociais, hoje manipulados à vontade pelo governo, por meio de uma nova e efetiva acumulação de ativos, é medida urgente, necessária e positiva para a poupança nacional e, lembrando, até legalmente obrigatória, embora seguidamente descumprida, em função da desobediência federal ao preceito estabelecido no artigo 68 da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

    Um país deve ser capaz de financiar seus investimentos, principalmente os de infraestrutura, com recursos de sua poupança interna. Economias populares de caráter previdenciário são particularmente adaptáveis ao esforço de empreender a infraestrutura do Brasil. Um trabalhador jovem, que hoje poupa para seu futuro, quando deposita os valores mensais de sua contribuição num fundo previdenciário, espera que o administrador desses recursos eleja boas opções de investimento em áreas que ofereçam retorno relativamente seguro num largo horizonte de tempo, como é a produção de energia, o pré-sal, por exemplo, e outros investimentos em infraestrutura, como a concessão de rodovias, portos e aeroportos. Isso simplesmente não acontece hoje. Não há um fundo previdenciário para as contribuições ao INSS. Embora omissiva, em virtude do comando do art. 68 da LRF, a ausência de um Fundo para administrar o regime geral da previdência no Brasil continua sendo a manifestação mais prejudicial do governo grátis contra os interesses dos trabalhadores.

    Quando há casamento entre a capacidade de espera do investidor, em busca de uma melhor rentabilidade de longa maturação, e a conveniência de investir a longo prazo – em portos, aeroportos, rodovias e ferrovias, usinas geradoras, poços de petróleo, novas tecnologias etc. –, aí está a chance de um país de produzir o enriquecimento geral e permitir que muitos grupos empreendedores, com a população em geral, tenham o direito de enriquecer juntos. No Brasil, infelizmente, esse direito ainda é constantemente negado à grande maioria, o mais triste exemplo disso tendo sido a privatização "não popular" de empresas do Programa Nacional de Desestatização, criado em 1990, em que praticamente se proibiu o concurso da poupança popular na aquisição das estatais, salvo aos empregados das respectivas empresas, mesmo assim em grau limitado de participação.

    No episódio da capitalização da Petrobras para investir no pré-sal, perdeu-se outra excelente oportunidade de se distribuir riqueza para o grande público por meio do mercado de capitais. O Brasil continua provando que o apelo populista ao governo grátis vem casado com a exclusão do direito popular à riqueza empresarial, que nasce na mão do governo por meio de empresas estatais, mas jamais se converte em riqueza compartilhada por todos. O Brasil do governo grátis é também um Brasil que exclui o povo da riqueza em ativos rentáveis. O governo grátis é especialista em oferecer renda assistencial, a conta-gotas. Deixa o povo à margem da riqueza acumulada em ativos empresariais. Descumpre a missão social maior, que seria a de desconcentrar a riqueza nacional.

    No futuro processo de acumulação de capital pela população, o governo deixará de carregar passivos previdenciários que não tenham lastro em ativos. Esta é a proposta em síntese. Só um governo grátis deixa de formar reservas para honrar seus futuros compromissos. É, infelizmente, o caso do Brasil atual. O governo terá que renegociar sua presença ineficiente como gestor dos recursos de seguridade social da população. Em seguida, o governo terá que lastrear, passo a passo, os direitos previdenciários preexistentes, com ações e direitos reais, hoje em poder do Estado, a serem incorporados à riqueza coletiva da sociedade, como mostrado no quadro do Balanço Patrimonial de longo prazo. O governo diminuirá, então, sua exposição futura a novas obrigações sem lastro, usando ativos existentes em seu balanço patrimonial para reduzir o passivo previdenciário a descoberto no futuro.

    A conquista da prosperidade popular pode ser acelerada se as pessoas puderem "contar com seus direitos" e, eventualmente, deles puderem dispor, em maior ou menor grau. Essa será a revolução do acesso múltiplo à propriedade, tanto mobiliária (previdência) como imobiliária (terra, casa): trilhões de reais – repetindo –, trilhões, em passivos "incobráveis" ao governo, no momento retidos no balanço patrimonial do setor público, e que correspondem a trilhões de reais em ativos "mortos", direitos duvidosos, não resgatáveis, podem ser transformados em riqueza viva, em ativos detidos pelo grosso da população. O público, na situação atual, fica apenas torcendo para que "o dinheiro esteja lá", quando chegar sua vez de cobrar o que acumulou nas mãos do governo. Mudar significa antecipar a certeza desses direitos de acesso. Prosperidade real é a possibilidade de apropriação acelerada e bem distribuída de todas as formas de riqueza.

    O potencial da ideia de usucapião administrativa é espetacular. A titulação de cerca de 15 milhões de habitações regularizáveis, que passem a ter sua matrícula no respectivo Registro de Imóveis, daria um notável impulso à economia da construção civil autônoma. E passaria a demandar mais infraestrutura complementar urbana. Mais impostos municipais poderiam ser arrecadados pela valorização de bairros inteiros e de antigas comunidades
    informais. Um choque de riqueza pode ser calculado em função da valorização imobiliária a ser trazida pela titulação fundiária, ensejando o que se chama de riqueza nova, estimada, na hipótese da legalização das 15 milhões de posses precárias atuais, no acréscimo de R$ 1 trilhão ao valor da riqueza imobiliária nacional, em poder das camadas populares da nação brasileira.

    Uma agenda de ação distributiva de riqueza assim se define:

    As políticas de renda, de inclusão social e de redução da pobreza podem ser notavelmente potencializadas se forem introduzidos mecanismos paralelos de distribuição da riqueza "morta", parada nos balanços dos governos, ou nos cartórios, sem prejuízo da riqueza "viva" das empresas e das pessoas, cuja proteção jurídica é essencial.

    O mercado de capitais é o centro de comunicação e trocas da riqueza viva do país, do qual dezenas de milhões de brasileiros deveriam participar como acionistas diretos ou indiretos, mediante fomento dessa forma superior de "inclusão social na riqueza nacional".

    O instrumento essencial de formação da poupança pessoal e de acumulação de riqueza para o futuro é a previdência social e fundos assemelhados (fundos de pensão e previdência privada aberta), cuja organização é crucial de modo a tornar tangíveis e mensuráveis os valores acumulados por cada participante do sistema de seguridade social. Cada segurado deve ter sua conta personalizada num fundo previdenciário identificável e poder acumular de modo seguro e tangível.

    A maneira de o governo complementar as atuais providências, criando títulos de emissão para financiamento da infraestrutura, deve ser por meio da organização da oferta de fundos previdenciários,
    cujos recursos virão de uma legião de jovens entrantes no mercado de trabalho, tendo sua poupança de longo prazo organizada com vistas a tal finalidade.

    O Congresso deve regulamentar, e o Poder Executivo prontamente instituir, o Fundo de Gestão do Regime Geral da Previdência, prescrito no art. 68 da LRF.

    Para alimentar o Fundo de Gestão Previdenciária, as contribuições da parcela do empregado (8%) sobre sua renda salarial mensal, que hoje são recolhidas ao caixa único do INSS, deverão constituir fluxo novo para o novo Fundo de Gestão em conta personalizada do participante, sempre que este optar por tal regime.

    O FGTS deve ser realinhado à nova dinâmica de acumulação rápida de poupanças, tendo seu caráter compulsório e de recursos de alocação cativa, devidamente mitigado, pela liberação gradual de parcela do total arrecadado para ser aplicado livremente pelo detentor da conta, eventualmente em programas de aquisição de emissões novas, de empresas listadas no Novo Mercado. Desse modo fomenta-se a poupança e, simultaneamente, se amplia o acesso de novas empresas ao mercado de capitais de governança aberta.

    A caderneta de poupança deve ter seu regime de remuneração modernizado, para levar em conta as diferenças de prazo de aplicação, segurança e rentabilidade correspondentes.

    As formas de previdência complementar, que capitalizam recursos para a população, devem ser fomentadas por todos os meios cabíveis, mormente por isenção fiscal, aí se incluindo a previdência complementar dos servidores em todos os setores da Administração Pública, a previdência fechada, patrocinada por empresas e, sobretudo, por meio da chamada previdência associativa, organizada em torno de instituidores, que serão, potencialmente, milhares de entidades associativas, profissionais, cooperativas e sindicais cuja legislação se encontra à espera do estímulo de uma sinalização prática, tal como a aplicação de uma parcela do fluxo dos depósitos do FGTS.

    Na área do desenvolvimento urbano e social, cumpre dar vida aos artigos 49 e seguintes da lei do PMCMV, cujo potencial de criação de riqueza nova, pela titulação em massa de propriedades em comunidades informais, é um dos instrumentos prontos, para uso imediato, no arsenal de políticas de redução de pobreza e de inclusão de milhões de pessoas ao capital formal da nação.
    O realinhamento dos juros no país é tarefa urgentíssima e inadiável, pelo que algumas providências fundamentais são lembradas.

    O Tesouro Nacional deve suspender imediatamente a emissão de qualquer dívida com juros a fixar; mesmo aquelas com cláusula de correção monetária devem ter sua emissão restringida ao mínimo. Um programa de recompra de Letras Financeiras (LFTs) em circulação no mercado deve ser estabelecido e cumprido à risca, para eliminar a presença dessas letras de modo definitivo.

    O uso do IGP-DI ou IGP-M e de suas partes componentes deve ser vedado nos contratos futuros, por ser uma fórmula de correção desatualizada, carregando 60% do seu total como preços no atacado. Os contratos em vigor, inclusive os de revisão de preços de serviços públicos, devem encarar um prazo para adotar novo indexador.

    As regras de indexação anual na economia devem ser alteradas para operar com revisões, no mínimo, trienais, de modo a eliminar o automatismo das "reposições anuais de rendas e preços".

    A chamada "cunha fiscal" – a pilha de custos tributários e parafiscais que incide sobre as operações de crédito – deve ser imediatamente revista, assim como o nível do recolhimento compulsório atualmente exigido do sistema bancário.

    O Conselho Monetário Nacional deve estabelecer um limite à expansão anual dos "créditos direcionados" – uma vez que todo crédito concedido com taxas especiais na economia sempre surge às custas de todos os demais tomadores, que enfrentarão um crédito mais caro no sistema livre a fim de compensar pelo subsídio na outra ponta. Afinal, não existe crédito grátis.

    Paralelamente à implantação do PAI, uma vez transformado o juro estéril da dívida estadual em novos programas de infraestrutura e sustentabilidade no interior do país, os estados deverão passar a utilizar o mercado de capitais para captar seus recursos de investimentos, com emissão direta de títulos de dívida estadual ou municipal, cujos papéis terão seu risco de crédito classificado e publicado, de modo a possibilitar a desova gradual dos títulos da dívida pregressa no mercado.
  • Matheus S  11/08/2019 18:26
    A surpresa da queda do banco Baoshang foi que no balancete parecia ser um banco saudável, lucro de US$ 600 milhões em 2017 (banco pequeno), ativos de US$90 bilhões, baixo índice de inadimplência (nonperforming-loan de 1,68%), em um país que cresce 6.0%. Banco lucrativo, com baixa inadimplência em país que cresce, entrando em colapso é algo difícil de ser compreendido para os não familiarizados.

    O mercado paralelo chinês de crédito deve ser 2 ou 3x maior do que o mercado de crédito dos EUA, e isso é completamente bizarro já que a economia estadunidense é quase 40% maior do que a chinesa. Os bancos chineses são os maiores do mundo, tanto em faturamento quanto em concessão de crédito, estima-se que 80% das empresas privadas do país já receberam recursos do mercado paralelo de crédito, isso alavancou o crescimento econômico de modo surpreendente, mas isso preconiza também em contrair dívidas, algo que atualmente está em níveis alarmantes.

    Para se ter uma ideia, na China existem empresas zumbis, os proprietários estão entregando as empresas nas mãos dos funcionários para não ter que ser cobrado pelos bancos, até porque na China não existe o Princípio da Entidade, se o banco cobrar, você terá que entregar seus bens particulares aqueles não vinculados à sua empresa.

    Esta matéria descreve exatamente o fenômeno da qual falei sobre o mercado de crédito e crescimento econômico chinês: moneytimes.com.br/cnbc-economia-da-china-acelera-na-medida-em-que-empresas-contraem-mais-dividas/

    É mais do que sabido que o mercado financeiro e bancário da China é algo completamente bizarro, lembro de 2015 quando teve aquele "crash" em que a bolsa chinesa caiu em 40% e arrastou todas as bolsas do mundo juntamente com ela, aquilo foi um sinal bem forte de que há algo de errado com a China.

    Pois bem, voltando ao assunto do banco Baoshang. Os bancos regionais e locais chineses são altamente dependentes do mercado interbancário, o colapso do banco provocou o primeiro inadimplemento interbancário na China, estrangulando o crédito a pequenos bancos e elevando os custos dos empréstimos, o BC chinês foi obrigado a injetar liquidez no mercado no total de US$125 bilhões. Isso abalou fortemente as bases do setor bancário chinês, porém muito mais importante foi o colapso causado pela primeira inadimplência interbancária da China.

    Quando há um colapso, o mercado de crédito congela, os bancos param de emprestar uns aos outros e a economia oscila acima do abismo e isso desencadeou fortes abalos na liquidez no sistema interbancário chinês, e isso representa um desafio a crença fundamental na China, de que seu sistema bancário é sólido.

    Agora, os grandes bancos chineses evitam fazer negócios com credores menores, e isso é preocupante, já que os bancos de pequeno a médio porte combinados têm balanços patrimoniais tão grandes quanto os grandes bancos combinados, mas são muito mais dependentes do financiamento interbancário.

    O banco central injetou imediatamente cerca de 600 bilhões de yuans (US $ 125 bilhões) no sistema e interrompeu uma corrida aos bancos ao garantir 100% de todos os depósitos de varejo, porém será preciso muito mais do que isso no futuro.

    As instituições financeiras de pequeno e médio porte confiaram desesperadamente no financiamento por atacado, já que carecem de fortes redes bancárias de varejo para atrair depósitos. Em outras palavras, eles emprestam muito dos grandes bancos para expandir seus ativos, e o consenso é que tal expansão agressiva de ativos pode resultar em um problema de dívida feia se os reguladores não puderem controlar e administrar adequadamente o dano em potencial.
    Enquanto isso, eles se alavancaram através de uma variedade de canais, e os títulos são freqüentemente usados ??para conseguir isso. Normalmente, os pequenos bancos tomam dinheiro emprestado do mercado interbancário e compram títulos, depois usam a recompra de títulos (isto é, usam os títulos como garantia) para pedir dinheiro emprestado e então comprar títulos novamente.
    Como os títulos do governo são normalmente considerados como "ativos livres de risco", esses títulos podem ter um tratamento de capital favorável. Nesse caso, um pequeno banco com uma base de capital relativamente pequena poderia aumentar rapidamente seus ativos via comércio de títulos alavancados.
    Mas tudo isso é baseado no pressuposto de financiamento contínuo, ajudando os corretores a navegar suavemente pela volatilidade do mercado. No entanto, quando há uma crise de confiança no mercado, os grandes bancos relutam em emprestar para suas contrapartes pequenas, especialmente quando se preocupam com o futuro das pequenas instituições.
    Como resultado, os bancos pequenos e médios que enfrentam problemas de liquidez terão que descarregar seus ativos mais líquidos, ou seja, seus títulos do governo. Isso explica o baixo desempenho do mercado de títulos chineses nos últimos meses.

    E a guerra comercial com os EUA:
    A escala do investimento estrangeiro em manufaturas de alta qualidade está encolhendo rapidamente, de acordo com o instituto de pesquisa Anbound, de Pequim, e quase não há novos investimentos em alguns parques industriais de Xangai.
    A retirada de grandes empresas estrangeiras está se tornando perceptível. Samsung e a Olympus e a Epson do Japão fecharam muitas de suas fábricas na China e podem se retirar completamente do mercado chinês. Carrefour está batendo um retiro, junto com Tesco e Wal-Mart, na venda de participações significativas em suas operações chinesas.
  • Menestrel da Podridão  08/08/2019 13:26
    Na vil fórmula da esquerda
    É dividida a riqueza,
    Para então somar-se à merda
    Multiplicando-a à pobreza

    twitter.com/dapodridao
  • Alaor  08/08/2019 13:31
    Quanto da potencial recuperação econômica brasileira após as reformas econômicas será consumida com este cenário internacional deteriorado?
  • Tannhauser  08/08/2019 14:13
    Haverá um QE Chinês? Quais seriam as consequencias globais?
  • Dedé  08/08/2019 15:27
    Que a China um dia passará por uma crise financeira, não é novidade para ninguém. A dúvida é como o partido comunista chinês reagirá a uma crise.
    Veja, os ciclos da economia americana são bem conhecidos: longo períodos de expansão seguido de uma recessão.
    Mesmo com toda a gritaria política em ambos os lados do espectro político, há uma certa previsibilidade sobre a economia americana, suas instituições e sua moeda.
    Mas sobre a China não há previsibilidade alguma. A propaganda oficial do PC é de que eles vão crescer até o céu e dominar o mundo. Prometem isso a sua população e já agem como se fossem a super potência que sonham um dia ser. Haja vista seus gastos militares e suas ações no mar do sul da China.
    Imagina para os burocratas chineses terem que adiar seu domínio sobre o mundo, enfrentando uma crise no demonizado sistema financeiro. Pode haver na China um recrudescimento em termos econômico, estatização do sistema do financeiro seguido de um aumento do intervencionismo estatal e do Keynesianismo econômico, que só tendem a agravar as grandes distorções que existem na economia chinesa.
  • Questionador  08/08/2019 19:09
    É verdade, existe um risco imenso de se aprofundar a interferência estatal na China, ao ponto em que quase se alcance o socialismo pleno.
  • Pobre Mineiro  08/08/2019 19:30
    Bom, desde a morte do Mao Tsé Tung a China vem, paulatinamente, diminuindo a interferência estatal na economia.
    Eles já são bem mais livres na economia do que o Brasil, sabia disso ?. Umas 50 posições acima de nós na classificação da heritage.

    Escravos somos nós, e tem muitos por aí que juram que são livres. ??
  • cmr  09/08/2019 13:42
    Cara, estou muito interessado em saber o que é isso aí que vcs estão falando, explique aí anônimo.
    Que diabos é isso de gdp ppp ???

    Só não me venha com links de YouTube ou Wikipedia.
  • ed  09/08/2019 13:46
    Pessoal, estou com dúvida que me ocorreu agora.

    Sabemos que grande parte dos gastos brasileiros são engessados. Nas palavras do próprio Guedes quase tudo já vem "carimbado". Sendo assim, não dá para esperar muitos cortes de gastos.

    Mas suponha que o Guedes/congresso resolvesse dar uma banana para isso e resolver cortar impostos a rodo SEM SE IMPORTAR COM O CRESCIMENTO DA DÍVIDA.

    Do ponto de vista moral isso seria correto. Afinal, não fomos nós que fizemos a dívida. Sendo assim, por qual motivo estamos sendo espoliados para pagá-la?

    Mas isso seria bom para a economia? Por um lado teremos corte de impostos mas por outro a bomba relógio da dívida iria explodir. A minha pergunta é: É melhor redução de impostos e aumento de dívida pública ou manter os impostos mas pagando a dívida (o que parece ser o plano de Guedes. Ele quer privatizar e usar a grana para pagar parte da dívida pública)?

  • Murphy  09/08/2019 14:02
    Se isso ocorresse (calote), o real desabaria no mercado de câmbio (ninguém iria portar uma moeda cujo próprio emissor não quer honrar), e junto iria todo o padrão de vida da população.
  • anônimo  09/08/2019 14:04
    Quanto a deixar déficit e dívida explodirem, veja este artigo, principalmente a seção "Sem impostos, dívida"
  • Happy Merchant  09/08/2019 15:59
    As curvas de juros dos títulos do tesouro americano finalmente se inverteram. Isso significa que daqui 6 meses haverá uma recessão severa nos EUA.

    Isso pode ser danoso ou benéfico para o Brasil, dependendo da maneira como encararem a situação O QUANTO ANTES.

    O Brasil precisa, urgentemente, desburocratizar o que é necessário para investimentos estrangeiros, principalmente americanos, serem feitos aqui.

    Se algum chegado ao Paulo Guedes visita esse site, por favor avise que todos os esforços devem ser destinados para os investimentos estrangeiros serem facilitados nessa republiqueta.
  • Trader  09/08/2019 16:46
    Na verdade, a de 30 anos e a de 3 meses ainda não se inverteram.

    E nem as de 10 anos e 2 anos.

    Sempre lembrando que, como bem disse o artigo, as curvas de 30 anos e de 3 meses são o único indicador com 100% de acerto.

    Ou seja, ainda tem um respiro.
  • Trader  09/08/2019 18:24
    Opa, adendo: fiz o comentário acima achando que estava em outro artigo, que fala exatamente sobre isso (inversão da curva de juros).

    É este aqui:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2971
  • Um humilde investidor  30/08/2019 14:33
    Acabamos de ter a inversão de 3m vs 30y (no dia 28/ago/2019). Agora é pra valer. A dúvida é: pra onde correr?

    Gráfico do FED
  • Humberto  30/08/2019 16:51
    Já se desinverteu. Não durou nem um dia.
  • Andre  30/08/2019 17:44
    Tem tanta gente olhando pra esse termômetro que não me admiraria ele não funcionar mais por alguma manipulação.
  • anônimo  09/08/2019 17:13
    www.ft.com/content/f25ff608-b950-11e9-8a88-aa6628ac896c
  • Skeptic  12/08/2019 17:05
    Seria muito curioso se o PCC mudasse de estratégia e tornasse a China o paraíso do livre mercado, algo como Hong Kong já é, ao estilo Pinochet por falta de outro exemplo. em níveis radicais: solidificar sua moeda com base no ouro, abrir totalmente o mercado, corrigir o sistema bancário e matar o mercantilismo de vez. Infelizmente são coisas para o longo prazo, seria hilário ver a reação do Trump contra tais medidas.

    O que vocês acham que isso poderia causar no mundo, na própria China e no próprio partido chinês?

    Minha opinião: A China dominaria o mundo mas o PCC teria muita chance de ser extinto por ondas democráticas.
  • Felipe  13/08/2019 16:41
    "os balanços contábeis do banco estavam tão confusos e desorganizados, que ninguém ainda conseguiu decifrar e divulgar os dados de 2018"

    Mas isso é óbvio. Imagina decifrar um balancete em mandarim? Eu iria demorar décadas...
  • Emerson Luis  30/08/2019 13:43

    Os países gigantes são vítimas do seu próprio tamanho: demoram mais para sentir os efeitos de práticas keynesianas e marxistas do que os países pequenos. São como o sujeito que se torna alcoólatra [em parte] por causa da sua alta tolerância ao álcool.

    * * *
  • Paulo Homonnay  10/09/2019 00:11
    Ótima reportagem, esclarece como pensa e opera o BC chines e o PCC.
    Parabéns pela imparcialidade!
    Gostaria de aproveitar o momento que estamos falando sobre as 2 maiores economias do mundo que também possuem as maiores dívidas.
    Os USA tem um dívida acumulada de US$22 Trilhões que é muito alta em relação ao PIB mas não tão alta em relação a China.
    www.usgovernmentspending.com/debt_clock
    Gostaria de entender por que apesar desse número ser astronomico, o governo central continua aumentando a dívida em 700 Bilhoes por ano e parece que não reflete na economia e no sistema financeiro.
    Aqui vemos o nosso governo fazer de tudo para cortar gastos / reduzir despesas para pagar o superavit primário e não aumentar a dívida pública.
    Se puder falar um pouco sobre isso ficaria muito grato.

  • Leandro  10/09/2019 01:32
    "Gostaria de entender por que apesar desse número ser astronomico, o governo central [americano] continua aumentando a dívida em 700 Bilhoes por ano e parece que não reflete na economia e no sistema financeiro."

    Resposta direta: porque ele pode.

    Todo o resto do mundo está disposto a financiar fartamente o governo americano. E por que não estaria? O país é rico, sua população é extremamente produtiva (o que significa que, no extremo, ela pode arcar com muitos impostos para bancar o serviço da dívida), a moeda é historicamente forte e estável (o que significa que não há grandes chances de você perder dinheiro com desvalorizações cambiais ao emprestar para o governo japonês) e é a principal do mundo, e não há histórico de calotes e nem de hiperinflação.

    Ademais, o déficit é de 3,8% do PIB. Menor que o brasileiro (que é de 7,1% do PIB).

    Agora, vejamos o governo brasileiro. Tem, como dito, um déficit de 7,1% do PIB, a população é mais pobre (o que aumenta o risco de calote, pois não há produtividade suficiente para ser constantemente tributada), nossa moeda é instável (o que aumenta o risco de perdas de capital para os investidores em caso de grandes desvalorizações cambiais), e o governo, após uma história de seguidos calotes e de hiperinflações prolongadas, não usufrui muita credibilidade lá fora.


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